Intervenção do Deputado Eduardo Ferro Rodrigues
Debate O.E./2004
21. Novembro. 2003
"Senhor Presidente,
Senhor Primeiro-Ministro,
Senhores Ministros,
Senhoras e Senhores Deputados,
Os portugueses conhecem o país em que vivem. Um país mergulhado na depressão, um país que vive nas ruas da amargura, das quais não se vislumbra a saída.
Este é um momento em que muitos portugueses, e até alguns analistas até há pouco entusiastas do governo, colocam a seguinte pergunta: Era mesmo preciso todo este desemprego, toda esta recessão, todo este clima de depressão, para que, ainda por cima, não se conseguisse cumprir nenhum objectivo em termos de consolidação orçamental?
A resposta é clara e inequívoca. Não.
Há um algarismo que marca estrondosamente a hecatombe da política orçamental do governo – 5,2% de défice público para 2003, sem recurso a manigâncias extraordinárias para obtenção de receitas. Mas outros dois números assinalam o fracasso da política económica e social: os 448 mil desempregados do mês de Outubro e a queda de 1,1% do produto.
Um desemprego que cresce a um ritmo sete vezes superior à média da União Europeia.
Um produto que decresce, quando na Europa continua a crescer.
Pior era quase impossível.
Em três anos consecutivos, Portugal terá uma divergência do seu produto, face à média da União Europeia, de 3,5%. É espantoso que depois de na campanha eleitoral o Dr. Durão Barroso ter andado a prometer a aproximação à União Europeia, o melhor que consiga tenha sido apenas uma coisa: mais e mais divergência.
Pior era quase impossível.
Em três anos consecutivos, movido pela obsessão do défice, a única coisa que o governo do Dr. Durão Barroso conseguiu foi consolidar a recessão, aumentar o desemprego e promover a quebra do investimento. E aumentar a fraude e a evasão fiscal para níveis nunca atingidos. Como revelou o boletim do Banco de Portugal desta semana, o que está em curso é uma autêntica hecatombe orçamental. Pior era quase impossível.
O Governo vive obcecado com o défice, mas, também vive obcecado com a ideia de que não há alternativas à sua política. É uma afirmação arrogante e é uma afirmação falsa.
Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados
É falso que a situação em que Portugal vive fosse inevitável.
Era evitável a subida estúpida dos impostos, pois teve como contrapartida uma queda de receitas; era evitável a crise e o clima de desconfiança e depressão; era evitável a obsessão contabilística, que tudo substituiu e tudo condiciona. É esta obsessão contabilística, em intensa articulação com a incompetência, que faz com que, no governo, não haja uma política, uma ideia, uma estratégia para Portugal.
É necessário recuar ao século passado para encontrar um valor do investimento público, em termos reais, inferior ao proposto para 2004. Em 2000, em 2001, em 2002 e, pasme-se, mesmo em 2003, os valores do PIDDAC foram superiores aos aqui apresentados.
É necessário recuar 20 anos, para a crise brutal de 1983/84, quando estávamos fora do mercado único, para encontrar uma quebra tão brutal do investimento privado. Aliás, o discurso da tanga deu um contributo inestimável para este objectivo. É o próprio boletim do Banco de Portugal que o reconhece quando afirma que, “o acentuado abrandamento do investimento do sector privado terá sido reforçado pela deterioração das expectativas dos empresários”.
A situação é tal que a Senhora Ministra das Finanças está a conseguir bater todos os recordes negativos que ela própria já tinha estabelecido em 1993. Embora, falar na Senhora como a Ministra da recessão é esquecer o principal responsável o Primeiro-Ministro da recessão o Dr. Durão Barroso.
A teimosia obsessiva do governo em persistir no erro só tem um resultado. Cada orçamento que passa, o Governo tem de recorrer, cada vez mais, a receitas extraordinárias para cumprir formalmente os 3%. Mas na prática, a consolidação orçamental é apenas um oásis, irreal e todos os dias mais distante.
Em 2002, o governo apresentou um défice de 2,7%. Sem malabarismos ele seria de 4,2%.
Em 2003, apresentará um défice de 2,944%. Sem malabarismos deveria atingir os 5,2%.
Para 2004, apresenta um défice de 2,844%. Mas pede, já, uma autorização de endividamento para um défice de 6,2%.
Pior era quase impossível.
Com estes mesmos malabarismos Portugal teria tido, em 2001, um défice de 2%.
Senhor Presidente
Senhoras e Senhores Deputados
Este governo não demonstrou nenhuma capacidade para levar a cabo uma efectiva redução do défice público. O que tem feito é, simplesmente, aprovar orçamentos restritivos, exclusivamente à custa do investimento. É o próprio Ministério das Finanças que o afirma, quando diz que “a orientação da política orçamental consagrada no O.E. é restritiva (...) integralmente suportada pela diminuição na despesa de capital”. É impossível ser mais claro.
Orçamentos restritivos que não consolidaram as contas públicas, e muito menos cumpriram, efectivamente as metas fixadas nos programas de estabilidade e crescimento.
O que é que o país e os portugueses ganham com esta ilusão de consolidação?
Hoje, depois de um orçamento rectificativo, de um orçamento para 2003, em que falhou estrondosamente todos os seus próprios objectivos, apoiado por uma maioria, composta cada vez mais por uma coligação que se confunde num único partido, é altura de nos perguntarmos: para onde está este governo a conduzir Portugal?
Por três vezes consecutivas, o Governo do Dr. Durão Barroso veio aqui trazer-nos a mesma receita económica. Os resultados dos dois primeiros episódios são conhecidos e são muito maus. Mas o Governo insiste. Mal, mas insiste. Em lugar de procurar um final diferente, insiste em ser o actor principal duma tragédia orçamental. É um governo que erra e, face à evidência dos seus erros, opta por errar de novo.
Este sempre foi um mau orçamento. Dissemo-lo no debate na generalidade. Ainda assim, fizemos propostas para o tornar menos mau. Propostas que, ao contrário do que nos acusam, não agravavam o défice público. E eram sinais de mudança para melhor. Para alguns inovação. Para alguns esperança. A maioria rejeitou-as absolutamente. A responsabilidade pelas consequências deste Orçamento serão absolutamente desta maioria e deste governo.
Aliás, recusaram as propostas de hoje, como recusaram as de há um ano atrás. Os resultados são conhecidos: quem perdeu foram os portugueses. Hoje como ontem o PS dispôs-se ao debate construtivo. Recusaram-no. É lamentável.
Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados
Havia outro caminho para Portugal responder ao abrandamento económico.
Um caminho onde o governo confiasse mais nas nossas empresas e na nossa capacidade de criar riqueza.
Um caminho onde o Governo tivesse a coragem de investir mais para que a economia não se afundasse.
Um caminho onde o Governo investisse no futuro. Na qualificação, na inovação, na educação.
Um caminho onde o Governo desse mais importância ao emprego e à coesão nacional.
Um caminho para que Portugal voltasse a crescer.
E não se diga que esse caminho seria um caminho de mais défice. Porque quem falhou na correcção do défice, quem falhou em 2002, quem voltou a falhar em 2003 e quem já está a falhar em 2004, é o governo. Foram as opções do Governo, foram as políticas cegas que falharam o défice e, como se tal não bastasse, falharam Portugal.
Esta é a verdade.
Este caminho, o caminho do Orçamento de 2004 que a maioria se prepara para aprovar é, mais uma vez, o do falhanço, falhanço nas previsões, falhanço nos resultados.
E é um orçamento falso.
Falso do lado das receitas porque parte duma mentira – a receita fiscal de 2003. Até Outubro, em cada mês, os Senhores arrecadaram 7,7% do que é hoje a vossa estimativa de receita. Nos próximos dois meses, propõe-se arrecadar, em cada um deles, 11,4%. Alguém acredita que isto seja possível? Ainda faltam mil milhões de euros, Senhor Primeiro Ministro!
O O.E. de 2004 é a expressão da política deste governo. Uma palavra: continua a enganar-se a si próprio. Não dá esperança aos portugueses, não dá qualquer sinal de que se preocupa com a coesão social, com a inovação, com o investimento, com a qualificação ou com o emprego. Este orçamento não é o orçamento que o futuro de Portugal precisava. Este orçamento é, apenas, a repetição dos erros do passado. Ou pior. Aos erros do passado acrescenta novos erros.
Quando a recessão, por si criada, gerou o desemprego, que resposta dá este governo? Investir no emprego? Não. Reduz os direitos sociais, no subsídio de desemprego, no subsídio de doença, com o único objectivo de conter a despesa. Mas, o desemprego aumenta a um ritmo tal, que o resultado, mesmo assim, não se duvide, terá uma maior pressão orçamental e uma crise social.
Já lá vão dezoitos meses deste governo e, em dezoito meses, nada mais conseguiram do que parar Portugal. Paralisaram o país, não resolveram nenhum dos problemas a que se tinham proposto e agravaram outros. Volto a citar o Professor Sousa Franco, “sem a obsessão do défice é possível reduzir o défice. Com a obsessão do défice é possível dar cabo da economia”. Este governo tem conseguido, simultaneamente, dar cabo da economia e aumentar o défice. Pior era quase impossível.
Não deixa, aliás, de ser curioso que países que não aceitaram tudo sacrificar no altar da falsa consolidação, como a Alemanha e a França, já tenham apresentado crescimentos positivos no 3º trimestre de 2003, mostrando que existia e existe uma outra política. Uma política alternativa. Não era preciso mergulhar o país nesta profunda recessão. Mas o governo optou por ir por aí e, ao fazê-lo, errou.
Pior era quase impossível.
Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados,
Há hoje uma dúvida que assalta muitos portugueses. Afinal o que levou o Governo a seguir um caminho que nos conduziu à recessão, à descrença e ao empobrecimento?
Será uma convicção ideológica profunda, uma cartilha macroeconómica que acredita que reduzir o papel do Estado a todo o custo é o melhor para a economia nacional e para os portugueses?
Ou será, antes, a preocupação com os limites do pacto de Estabilidade e Crescimento que têm condicionado de forma obsessiva a política do Governo do Dr. Durão Barroso?
Julgo que nem uma nem outra das respostas explicam o que Portugal tem vivido.
Para quem não sabe se o governo erra por convicção na doutrina neo-conservadora, ou por respeito ao pacto de estabilidade, nós respondemos. Nem só pela primeira razão, nem sobretudo pela segunda. O governo erra por cálculo na gestão eleitoralista do ciclo político e por pura incompetência. Incompetência, incapacidade, estas são outras palavras para a obsessão.
As políticas do Governo são antes do mais incompetentes e, ainda e sempre, teimosas. Porque são políticas de quem não aprende, nem sequer com os seus próprios erros.
Acredita o Dr. Durão Barroso que no futuro tudo será risonho. Um futuro cada vez mais longe, mas sempre com o cuidado de ser anterior a 2006. Ano das legislativas!
Este governo aposta na falta de memória dos portugueses. Aposta na ideia de que em 2005 e 2006, como não é possível estar ainda pior do que em 2002 e 2003, as pessoas estarão felizes e contentes e assim irão votar. Mas nós não deixaremos que a memória dos erros, das responsabilidades e dos fracassos se possa perder.
Porque há uma realidade que ninguém pode escamotear. Realidade que não vamos deixar esquecer.
É que estes estão a ser anos perdidos.
Anos em que nos estamos a afastar da União Europeia.
Anos em que estamos a descer em todos os rankings internacionais, não apenas no crescimento, no investimento ou no emprego, mas também na produtividade e na competitividade.
Em que as nossas empresas se estão a atrasar.
Em que Portugal está a ficar mais pobre e com mais pobres.
Em que o nosso potencial cientifico não cresce.
Em que milhares de jovens estão a perder a esperança.
O Governo do Dr Durão Barroso lançou-nos na recessão antes de todos os países da União Europeia.
Lançou-nos na mais profunda recessão de todos os países da U.E.
E com a política que, teimosamente, mantém, fará com que sejamos os últimos a sair dessa mesma recessão.
Pior que isto é impossível.
Esta verdade, a verdade que cada vez mais portugueses reconhecem, não permitiremos que seja esquecida.
E é em nome da esmagadora maioria dos portugueses, que votámos contra este orçamento de mediocridade, de conformismo e de mistificação. Portugal e os portugueses mereciam outro caminho.
O caminho da qualificação, do investimento, da inovação, do crescimento e do emprego."